sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O SEXTO TIME GRANDE DO FUTEBOL PAULISTA




Houve um tempo em que o futebol paulista contava com cinco times grandes. Além dos quatro atuais (Santos, São Paulo, Corinthians e Palmeiras), tínhamos também a Portuguesa de Desportos. Os cinco viviam as glórias das maiores conquistas entre os clubes profissionais de São Paulo.

Foi um longo período esse, até que a Lusa do Canindé começou a declinar e deixou de ser considerada grande, embora continuasse simpática aos olhos dos torcedores em geral.

Mas durante aquele saudoso tempo de cinco grandes, houve também a história de um clube do Interior que se infiltrou entre os poderosos e passou a ser considerado por muita gente como o sexto time grande do futebol paulista.

Existiu fundamento para tanto? Os que o chamavam de sexta força de São Paulo o faziam com propriedade?

Somente os fatos daquela época poderiam testemunhar a favor dessa assertiva, e os fatos são os seguintes:

Em 1959, esse time interiorano terminou o campeonato paulista em terceiro lugar. Em 1968, bisou o feito: terceiro lugar. Já mais à frente, em 1985, obteve a quarta colocação no Paulistão. Bem antes, em 1961, fora o quinto colocado.


Mas por que o sexto grande?

Seria porque esse clube conseguiu a sexta posição do Paulistão nada mais nada menos que oito (!) vezes?

Oito vezes sexto classificado no maior campeonato estadual do país! Um time do Interior...  Nos anos de 1960, 1962, 1963, 1967, 1969, 1970, 1982 e 1993.

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Bruninho
O já saudoso Bruninho (Bruno José Ópice de Matos), que dispensa apresentação, dada a sua proeminência nas hostes grenás, costumava dizer que a Ferroviária foi o primeiro clube-empresa do Brasil.

Por quê?  Porque ela era bancada pela EFA (Estrada de Ferro Araraquara). Os funcionários da “Estrada” eram obrigados a ser sócios da AFE... e tinham as mensalidades descontadas na folha de pagamento. Muitas locomotivas descartadas foram vendidas e os valores apurados, repassados à AFE. Tão verdadeira era essa particularidade de vínculo com a EFA, que a AFE só teve como presidentes, engenheiros da “Estrada”, no considerável período de 1950 a 1965.

Em resumo, enquanto existiu EFA, existiu AFE forte. Depois viria a FEPASA e a história passaria a ser outra: a Ferroviária deixava de contar com o respaldo da instituição ferroviária.


O que aconteceu então?

Para se manter em bom nível competitivo, a agremiação foi-se envolvendo em dívidas dado que o futebol se mostrava terrivelmente deficitário.

Como decorrência, a Ferroviária teve de sacrificar o seu invejável patrimônio. Primeiro teve de se desfazer da valiosa sede social, situada em pleno centro da cidade, na Avenida Duque de Caxias.

Depois foi a sentida perda da pensão de São Geraldo, onde os jogadores se concentravam.

E finalmente o golpe mais sentido de todos: a perda da enorme área em espaço nobre, na Fonte – que abriga um complexo esportivo representado pelo estádio de futebol e pelo conjunto de piscinas olímpicas. Foi tudo municipalizado. E poderia ter sido pior, se o espaço fosse adquirido por alguma iniciativa financeira, habitacional, etc. Aí veríamos naquele local um conglomerado de edifícios... e a Fonte Luminosa se resumiria à história.

Em diversas oportunidades a Ferroviária esteve a ponto de cerrar as portas. Um dos grandes méritos de seus dirigentes foi impedir que isso acontecesse. O clube tem uma trajetória ininterrupta de atividades. Jamais parou, jamais pediu licença na FPF.
O estoicismo dos próceres grenás há de ser enaltecido sempre que se contar a história da Associação.


No começo deste século, a Ferroviária tornou-se S.A.

Desde então, um único percalço representado por descenso e uma série de conquistas significativas.

Uma autêntica “volta por cima” foi empreendida pela Locomotiva, que em 2015 chegou finalmente à consumação de seu mais ambicionado objetivo: voltar a figurar entre os clubes da principal divisão do futebol paulista.

A última vez que a Ferroviária atuou pelo Paulistão foi no dia 05 de junho de 1996 – contra o Juventus, na Rua Javari. Um belo placar como despedida: 3 a 3.

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Hoje é véspera da formalização da volta afeana à elite, transcorridos quase 20 anos. Duas décadas!

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Vai longe o tempo em que o Expresso Fantasma  metia medo nos adversários e se impunha, no conceito de muita gente abalizada, como o SEXTO TIME GRANDE do estado de São Paulo. Sim, o sexto time grande foi a gloriosa Ferroviária de Araraquara.

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Boa parte da torcida da Ferroviária não vivenciou os melhores tempos e provavelmente nem conhece a extraordinária história da agremiação. Isso não arrefece o ímpeto dos que, por uma ou outra razão, vertem sua paixão clubística para a representante de Araraquara.

Dentro da nova realidade do futebol, um clube-empresa tem o dever de pensar grande.
Devemos confiar e contribuir para que o melhor aconteça à Ferroviária, e isso não se dará em decorrência apenas da atuação de um grupo reduzido de torcedores seletivos. É preciso uma união de esforços, que só acontecerá se todos se irmanarem e tiverem a humildade de reconhecer que a Ferroviária não se realiza apenas com o empenho de algumas centenas de torcedores fiéis. Ela precisa contar com os milhares de espectadores que se fizeram notar na Fonte Luminosa o ano passado. Se possível, um bocado mais.

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Oxalá em Diadema, contra o Água Santa, os afeanos iniciem uma grande campanha no Paulistão... quem sabe fazendo lembrar aquela história bonita da “intromissão” entre os grandes. Afinal, o torcedor tem o direito de sonhar.


Foto: Bruninho (Ricardo Simões - Facebook)


Texto de Vicente Henrique Baroffaldi e edição de Paulo Luís Micali

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